Por Jefferson Procópio – Ser politicamente correto – vida sob rédeas

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Nós sabemos que liberdade não combina com tradição, e muito menos em período de politicamente correto. A imagem que nos aparece é cada dia menos amistosa aos valores da liberdade. A interferência alheia de mídias, Estado e outras pessoas em várias questões de cunho familiar e comportamental, regulamentações e até culturas atravessam alguns modos de viver e pensar. Tenho plena certeza, que a grande parte já foi iludida por esse modo de pensar e agir. O termo é bonito, soa bem, parece polido, cheio de virtude, digno de ser aprendido e posto em prática. Com o tempo, no entanto, aprendemos que se trata de um embuste, mais uma daquelas novas expressões incluídas em nosso vocabulário para confundir e dar aparência de virtuoso àquilo que é vil, frívolo e indecoroso; roupagem fina para grosseria, ou um mal bem maquiado.

A expressão “politicamente correto” se firmou na língua inglesa como parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990. Embora haja ocorrências da expressão em textos da New Left (a Nova Esquerda), foi naquelas batalhas que o termo passou a funcionar como designação de um suposto autoritarismo policialesco da esquerda no uso da linguagem. A esfera do politicamente correto abrangeria classe, raça, gênero, orientação sexual, nacionalidade, descapacitação e outros marcadores de subalternidade. Mas, sem dúvida, o exemplo paradigmático sempre foi racial.

A partir daí, essa expressão “politicamente correto” transformou-se em algo como sendo parâmetro para outras coisas relativas no Brasil. Em uma frequência cada vez mais impressionante, esse termo vem sendo utilizado em tudo relacionado ou que envolva racismo, homofobia, sexismo, xenofobia ou estilo de vida é desqualificado com referência ao mencionado, o que estaria nos impedindo de sermos nós mesmos. O que faz do “politicamente correto” fosse um ser com vontade própria, um movimento, um sujeito com consciência.

Da mesma maneira, o politicamente correto quer sugerir verbetes que nos imponham um pedido de autorização para falar sobre determinados assuntos, tornando imoral o uso de sinônimos diversos. Começa-se com coisas simples, aparentemente sem consequências importantes: o aleijado é deficiente físico; o cego é deficiente visual; o relacionamento homossexual é homoafetivo; o viciado é dependente químico, e assim por diante. Por mais que saibamos que existem maneiras discretas de se referir a determinadas situações, tornamo-nos mal educados e incorretos pelo simples fato de usar algumas palavras, que em si nada têm de ofensivas, são apenas descritivas.

Esse modo de ser, já existia há tempos, mais precisamente na idade média, onde a vida coletiva, com seu envolvimento direto nas decisões de interesse da comunidade, a condução ativa dos negócios da polis era, como se sabe, direito exclusivo do cidadão livre no mundo clássico (tomemos o mundo grego, exemplarmente). Nada poderia expressar mais adequadamente a natureza livre do homem grego, digamos do que seu dever de servir como magistrado ou como chefe militar em sua polis. Foi essa visão de mundo que fez da Paideia – um ideal de educação geral e compartilhada – o horizonte ilustrado e esclarecido do mundo grego. Mais que isto, foi essa configuração de sociedade que informou algumas das principais concepções filosóficas gregas em matéria de política e moral: a tese segundo a qual cabe ao legislador, ao homem de Estado, educar o cidadão para a virtude. Não é preciso recorrer a Platão, cujas ideias inimigas da liberdade e da democracia são conhecidas de todos, para ilustrar o ponto.

Em meio a este ponto, surge o contraponto… Como viver “por si só”, sem tanto regramento, sem tanta influência, sem tanto esquema? É inadmissível ainda hoje existir tanta troca de valores, em pleno século XXI, existir dependência de outras pessoas para não ser excluído de uma “tribo” ou sociedade. Tanto regramento existente, e a única solução aceita é “fechar o bico e ciscar conforme a galinhada”. Porém, meus caros, a vida é muito mais do que isso, você colhe o que planta, recebe o que dá, blá-blá-blá… Infelizmente não há como pensar fora da caixa e agir conforme quer, nossa vida já é arquitetada desde o nascimento e para dar o “Hard-Reset” nessas configurações da caçuleta é um grandioso passo.

Música clássica é melhor do que funk? Pizza é melhor do que rabada? Vestido longo ou short curto? Falar o que pensa ou viver calado? Tímido ou extrovertido? Tatuagem ou piercing? Parecem perguntas simples, mas elas podem definir você para a sociedade, transformar do mais culto ao mais sem futuro do mundo. O bom samaritano vira o mentor verdadeiro e aquele que tem a chave para uma vida melhor é visto como preconceituoso. Os conceitos se invertem, numa jogada traiçoeira do politicamente correto para minar os contrários e manter o poder e a cultura estabelecida.

Hoje tudo é fobia. Se você anexar esse nome, tá concluído muitas das tuas defesas. A preferência é o teu acordo, ou seja, tornar difícil a argumentação de outra pessoa, transforma o diálogo em críticas e ataques, totalmente fora do campo da razão. E se você gritar aos quatro cantos que aquele discurso é cheio de ódio, e aos olhos de muitos, você vencerá o duelo. A partir daí, deixe o sistema agir, e verá que inverteu tudo e nos mecanizou a tal modo que não há mais certo, e sim pessoas criadas para viver em sociedade sem conflitos.

A nossa constituição dá o direito de manifestação responsável de consciência e de crença – “Responsável” – Após isso, pode ser considerada crime. Por outro lado, o direito de manifestação de uma contracultura é um direito sagrado e natural, e faz parte do ser humano. Negar isso é negar que a pessoa humana tem sua dignidade. Negar isso é negar direitos humanos.

Jefferson Procópio – Graduando em Direito com Extensão em Ciência Política

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