Em uma partida de Xadrez de alto nível, o jogador que executa o primeiro movimento tem mais chance de vencer. A primeira jogada é sempre das peças brancas e define a defesa ou o ataque que vem a seguir. O que se segue é uma sequência de movimentos em que cada peça tem um valor e um poder na busca pelo objetivo do jogo: eliminar o Rei adversário ou manter o seu Rei em pé!
No ano da graça de 2026, o planeta terra está assistindo em tempo real exatamente isso: uma partida de xadrez do mais alto nível. E, no que nos interessa, o Brasil ocupa um lugar de absoluto destaque nesse tabuleiro internacional.
Nossa proposta não é analisar essa partida. Ao invés disso, iremos estabelecer equivalências entre países e peças considerando as capacidades políticas, econômicas, bélicas e de articulação em relação aos outros atores do jogo, sempre medindo a importância de cada um no cenário geopolítico mais amplo, comparando-os com peças de xadrez.
Os EUA se comportam como um Rei, que é a peça mais importante do tabuleiro, mas tem pouca mobilidade – só anda uma casa por vez em qualquer direção, depende das peças ao seu redor para se proteger e não pode atacar ninguém. Em outros tempos, os EUA seriam uma Rainha, mas suas decisões políticas e econômicas dos últimos 30 anos fizeram com que ele perdesse essa condição.
Hoje, quem tem a condição de se comportar como uma Rainha é a China, pois se trata da peça mais poderosa do jogo, uma vez que pode se movimentar em todas as direções e transita entre as casas pretas e brancas sem limite de distância. Como ela sempre espera o movimento dos adversários para definir sua movimentação, podemos considerá-la uma rainha preta.
Na hierarquia do xadrez, a terceira força do tabuleiro é a Torre. Quando vemos como a Rússia e o Japão têm se comportado nos últimos três anos, podemos considerá-los Torres brancas: sempre atacando. Seguindo na direção das peças mais fracas, Alemanha e França seriam Cavalos, cuja principal característica é movimentar-se em ‘L’. Ainda que ele sempre ande a mesma quantidade de casas, a sua capacidade de saltar sobre as outras peças lhe dá uma vantagem estratégica ímpar.
Canadá, Grã-Bretanha, os países Nórdicos, Espanha, Itália têm a força de um Bispo: podem parar nas casas brancas ou pretas e dominam as linhas diagonais do tabuleiro, mas isso limita suas ações.
E o Brasil? Ele disputa com a Índia para saber quem é Torre e quem é Cavalo. Eu, particularmente, acredito que o Cavalo é mais forte e mais importante que a Torre (mas quem sou eu na fila do pão?).
Todos os outros países que não foram citados aqui podem ser considerados Peões. Sem querer soar pejorativo, suas atuações no jogo político internacional não são tão importantes para o que está proposto aqui.
Só para constar: menos de 40% do território brasileiro foi prospectado para terras raras até o momento em que este texto foi escrito. No entanto, já achamos a segunda maior reserva do mundo. Temos a maior reserva de água doce do mundo, somos um dos poucos países que conseguem colher três safras por ano no serrado (que nem é a região mais fértil do país). O mundo inteiro baba por nossas potencialidades.
Pensando sobre tudo isso e juntando esse breve arrazoado com a tempestade de escândalos envolvendo o STF que temos visto nos últimos dias (são viagens em jatinhos, contratos multimilionários, degustação de uísques e charutos e ternos de grife) sinto-me perdido!
Esse “vazamento” de um suposto contrato de quase meio bilhão de Reais (fora o que a gente não sabe ainda) envolvendo o Ministro Kassio Nunes Marques e o pedido de impeachment dele protocolado pelo Senador Alessandro Vieira do MDB sergipano é uma jogada difícil de entender.
Mesmo sabendo que a extrema direita sempre dobra a aposta. Mesmo sabendo que, na comunicação social, é mais do que certo a impossibilidade de se controlar todos os processos comunicativos, fica difícil entender por que eles estão fazendo tanta questão de jogar todos os debates sobre o Governo, o Senado, a Câmara dos Deputados e Presidente da República para segundo plano. Aliás, ninguém nem lembra direito que estamos às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização do Brasil, por tudo que ela representa para o planeta – considerando que estamos imersos em um cenário político internacional aturdido.
Uma opção talvez seja a expectativa da possibilidade de que algo retumbante (uma bomba atômica) contra o Flávio Bolsonaro ainda esteja por vir. Algo tão grande que seja suficiente pra sepultá-lo definitivamente.
Nesse caso, pode não se tratar apenas de tentar vencer a eleição, mas de manter o bolsonarismo tão forte quanto possível. Lembrem do que Eduardo Bolsonaro bradou em uma de suas muitas entrevistas: “Eu vejo vitória na derrota!!!”
Aí eu me volto para o problema da narrativa (pensado aqui como um problema de pesquisa: aquela velha e boa pergunta, cuja resposta não existe e precisa ser construída).
Com o lado de cá tecendo a narrativa de que o bolsonarismo está na UTI, eles esquecem do obvio: essa narrativa só pega no lado de cá. Do lado de lá, ainda são mais de um terço do eleitorado disposto a votar num candidato cuja capivara quase não dá para medir (eu tenho escutado pessoas dizendo que o Flávio não vale nada, mas que ainda é melhor que o Lula).
É o Zeitgeist que fortalece a extrema direita. É o mesmo espírito do tempo que descambou no fascismo que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Pode soar como teoria da conspiração, mas quando um ministro do STF renuncia a uma posição confortável num poder se comporta como um estamento para virar uma eleição de cabeça pra baixo, é de muito mais do que uma eleição para Presidente, Governador, Senador e Deputado que está em jogo.
É a força revolucionária da extrema direita jogando xadrez de alto nível. O mundo é o tabuleiro. Os países são as peças. O que propus aqui foi apenas a posição inicial de cada país no tabuleiro. Não podemos esquecer que, quando um peão chega ao outro lado do tabuleiro, ele é alçado a função de Rainha. Com isso quero dizer, que tudo pode acontecer até as eleições.
E, mais importante do que isso: fiquem à vontade para estabelecer a equivalência de cada peça a um país! Eu adoraria classificar o Brasil como uma Rainha bem agressiva…
Sam Thiago Borges é Dr. em Sociologia, professor, metodólogo, músico diletante e um observador preocupado com a realidade política atual do Brasil.

Dr. Sam Thiago Borges
* As opiniões contidas nesse artigo é de inteira responsabilidade do autor.